“É já o cair da tarde. A luz do ocaso atravessa a cortina de folhas e galhos da floresta em volta como lâminas alaranjadas, vindas do nada e a fumaça cinzenta, que brota lentamente da chaminé, se esvanesce lentamente, mesclando-se à tênue névoa branca desse fim-de-tarde frio. Estou de pé, parado à porta aberta, esperando... está bastante frio, porém, o ar quente que preenche a casa de conforto, à partir da lareira de pedra cinza, escapa pela porta aberta, aquecendo-me, para que eu espere... poderia esperar no confortável calor da cozinha, enquanto tomo um incitante chá de gengibre, hibisco e canela... mas não consigo inibir a ansiedade que toma conta de mim... depois de alguns meses, enfim, irei conhecê-la pessoalmente... depois de conhecê-la apenas como palavras escritas e imagens estáticas, enfim, ela estará aqui... enfim, poderei tocá-la, sentir sua pele, seus cheiros... enfim, poderei ouvir o som da sua voz, seu rizo, seus sussurros... Calma, devo me conter... sem más intenções... sei que é difícil, pois ela é muito sensual... e tem um conjunto de Pintas-Pescoço-Ombros-Colo de enlouquecer... mas não é isso que planejei... calma...
Os minutos passam como horas... o nervosismo aumenta, as mãos inquietas demonstram um início de cansaço... Onde estará ela? Terá acontecido algo?.. As sombras começam à crescer em meio aos arbustos... a noite começa à se avizinhar... Repentino, um som surge, ao longe... vai crescendo e crescendo... até que revela sua origem: um carro... ela está vindo... respira fundo... não demonstre nervosismo... O carro, enfim, surge na curva que leva ao chalé... um táxi, como combinado... ele se aproxima e pára... ao me aproximar, posso vê-la atravéz do vidro... ligeiramente diferente das fotos (sempre o somos)... ela sorri... eu abro a porta e dou a mão, para que ela saia... é tudo muito rápido: vou ao porta-malas, retiro as bolsas, pago o taxista, taxi vai embora, convido-a para entrar, entramos... quando fecho a porta e ponho as malas no chão, me dou conta de que não há mais nada entre nós... fios, monitores, distância... enquanto ela ainda está de costas, retiro seu casaco, com delicadeza... com as mãos em seus ombros, eu a viro para mim... ‘- É bom te ver pessoalmente!’ – penso em dizer, mas não digo... apenas a abraço... um abraço sem palavras... um abraço longo e apertado... após o abraço, nos afastamos, aos poucos, porém não mais do que poucos centímetros... ‘É bom te ver, Fábio!’ – ela diz... meu nome, dito pela sua voz, soa como música... sua voz é exatamente como imaginei... ‘É bom te ver também, Laiza.’ – respondo prontamente, contente por poder dizer seu nome...
Após mostrar-lhe a casa, arrumar suas coisas nas gavetas, ela decide tomar um banho... a viagem foi longa e cansativa, e ela quer recuperar as energias... enquanto ela se banha e se arruma, eu vou até a cozinha, preparar algo para comermos... decido por uma massa simples, com um molho simples de tomate com azeite e manjericão... os pratos já estão postos quando ela chega... preparei a mesa de centro da sala, de frente à lareira, ainda acesa, as taças de cristal verde refletia as chamas da lareira e a difusa luz que vinha da cozinha com pequenos brilhos cintilantes... convido-a para sentar... as almofadas postas lado-à-lado no chão nos deixam próximos o suficiente para nos esbarrarmos de leve, enquanto comemos... o Merlot amadeirado, especialmente escolhido para esta ocasião, inunda a casa com o aroma de uvas maturadas e álcool... terminamos a refeição ao mesmo tempo e ficamos conversando por um tempo... falamos sobre diversas coisas... impressões, coisas pessoais, música... tudo que é necessário para que nos conheçamos melhor (como se já não tivéssemos conversado o bastante, durante todo o tempo em que nos conhecemos)...
Nas altas horas da noite (não sei ao certo à que horas...), num único instante... num rápido instante... o silêncio... o tipo de silêncio que se instala quando há algo à ser feito... nossos rostos se aproximam lentamente, até que ficamos tão perto um do outro que posso ver meus próprios olhos refletidos nos dela... nossos lábios se tocam, de leve, se roçam... seu hálito, ligeiramente ofegante e perfumado com o vinho, inunda minhas narinas com o excitante aroma, vindo diretamente do seu peito... posso ver um pedido em seus olhos, pouco antes de eles se fecharem... atendendo à esse pedido, eu a beijo... um beijo profundo, sem fôlego... um beijo desejado por meses... o gosto da sua saliva age rápido, como uma droga, me fazendo querer mais do que apenas ele... ainda com a sua boca na minha e com nossas línguas se enroscando, eu levanto com ela nos braços e me dirijo ao quarto... ponho-a delicadamente na cama e me afasto, para gravar na mente este quadro lindo... o quarto, ligeiramente rebaixado em relação ao resto da casa, é forrado, do teto ao chão, em uma vibrante madeira castanho-avermelhada, a cama se projetava para além dos limites das paredes, separada do exterior por uma janela que a cobria até o alto, como um solar... a floresta podia ser vista pela janela... a névoa que nublava a tarde já tinha se dissipado e a Lua brilhava no céu... o luar, se derramando em sua pele branca, lhe deixa com o glamour de uma fada, como a visão de uma deusa... ela sorri, um sorriso gracioso como um convite... viro-me e caminho até a porta que, lentamente, fecho... não há mais ninguém ali... estamos à quilômetros de qualquer outro ser humano... mas, ainda assim, eu a fecho... antes da porta se fechar totalmente, eu ouço ela dizer: ‘Anda logo, querido! Não aguento mais esperar!’... ‘Seu desejo é uma ordem’ – respondo... a porta se fecha...”






