Em algum momento, tudo surgiu... BOOM!! Foi assim, num único instante (que nem sequer existia), que tudo surgiu... contra todas as expectativas, um único instante, um único momento e, BOOM... Uma única probabilidade que se fez em duas, então em três... então em várias, até que não pudessem mais ser contadas. O universo se expande nas possibilidades... não no tempo, não no espaço, mas nas possibilidades... tudo que pode acontecer, acontece... o dado sempre cai com todos os dados para cima... seis chances, seis possibilidades... e o universo cresce... tudo é o aqui e o agora... o gato está vivo... mas também está morto... infinitas realidades paralelas onde coexistimos com nós mesmos.
Quantas vezes nascemos? Quantas vezes morremos? Quantas vezes nem sequer viemos ao mundo? Em quantos lugares estamos? Quantas coisas vivemos? Quantos somos nós?
Divagando em algum lugar muito além daqui, aos poucos desço, de volta ao mundo. A Via-Láctea, como deveria ser, vai tomando seu lugar no céu. A noite está fria, porém linda... ainda admiro o piscar cintilante das estrelas, enquanto atravesso a janela aberta, roçando meu pensamento, de leve, nas cortinas que ondulam com a brisa. A penumbra escura que preenche o quarto não permite aos meus olhos distinguir as formas da mobília, memorizadas instintivamente, quando ainda estavam banhadas na trepidante luz das velas, que queimaram por completo e apagaram, enquanto eu viajava pelo infinito. O aroma de canela e a textura dos lençóis me trazem, enfim, à realidade... uma doce realidade!
Deitada de bruços, despida, com a cabeça em meu ombro e suas pernas entrelaçadas às minhas, minha amada dorme, profundamente, restaurando suas energias, tão calorosamente empregadas nas nossas recentes horas de amor. À algum tempo atrás eu consideraria esse um momento quase impossível de acontecer... mas, contra todas as possibilidades, aconteceu! Tudo sempre acontece... em algum lugar (a expressão não é exata, mas é a melhor que encontrei), um outro “Eu” está sozinho... talvez Ele esteja, ainda, na casa dos seus pais... talvez Ele esteja em sua própria casa... talvez nem esteja só, mas em companhia de alguém com quem não gostaria de estar, meramente para não estar sozinho... Ele pode estar aqui, agora! O “Eu” que não está vivendo esse momento...
Será que é isso que acontece quando sonhamos, quando nos entregamos, em nossos pensamentos, aos delírios de nossos desejos? Existirá algum mecanismo quântico desconhecido que possibilite o encontro de nossos “Eus”?.. Ele quer estar aqui! Não o culpo, pois não trocaria esse momento por nada!.. Minha amada se move. Seu sono parece inquieto... Ajeito uma mexa de seus cabelos que lhe cobria o rosto... ela jamais permitiria que eu fizesse isso, se estivesse acordada, mas não resisto, tenho de ver seu rosto. Está voltada para mim... sua cabeça está recostada em meu peito... posso ver a pinta que lhe enfeita face esquerda, logo acima da maçã do rosto... como eu amo essa pinta... como eu amo esse rosto... como eu amo essa mulher!
Ele deve estar com inveja desse momento. E isso me assusta! Tenho medo de que seu desejo se torne realidade... de que, no fim das contas, Ele tome meu lugar, me condenando à sua cruel realidade de estar sem ela... Sinto um arrepio, e um aperto no peito, pelo simples pensamento de que esse horror aconteça. Lágrimas brotam em meus olhos... eu respiro fundo... não pode ser... não tenho motivos para chorar... não de tristeza, pois essa tristeza não é minha... talvez seja a Dele... talvez Ele a chore... Minha querida sorri... que sonhos estará tendo? Estará revivendo nossos momentos de paixão? Ou, quem sabe, sonhará com um lindo futuro para nós?.. O frio aumenta, à medida que a madrugada se aprofunda... ela treme um pouco... talvez devesse fechar a janela, mas não me atrevo à levantar... eu poderia acordá-la... puxo os lençóis, na tentativa de cobri-la mais um pouco... o mover do tecido por sobre seu corpo evidencia suas curvas de mulher... a visão de seu corpo, ainda nu, embaixo das cobertas, o roçar dos seus seios no meu abdômen, o calor e o tato da sua pele na minha me excitam... mas devo me conter... Ele ainda está aqui, espreitando a nossa intimidade... além disso, eu quero deixá-la descansar... eu mesmo estou muito cansado... mas meus pensamentos não me permitem dormir... talvez Ele não me deixe dormir, sempre pensando, sempre sonhando...
Uma brisa sorrateira ergue uma mexa de seus grossos cabelos escuros em direção ao meu rosto, trazendo consigo seu doce perfume cítrico... Morda-se de inveja, pois sou eu que o sinto... Mas, por que eu? Por que justo eu? Talvez eu tenha tomado as atitudes certas, em algum momento da minha vida... talvez eu tenha tido sorte... Talvez não haja um porquê! Talvez, nesse jogo de possibilidades, eu esteja aqui apenas porque algum de mim tem de estar! Eu... justo eu... para a minha felicidade, eu... Mas, no fundo, não importa... o que importa (endossado pela palpável realidade em minha volta) é que EU estou aqui, abraçado à minha adormecida amada, despidos, após maravilhosos momentos de velas, incenso e amor, nessa linda noite estrelada de Lua Nova. Essa certeza me acalma... sobrevindo, enfim, ao sono.
Acho que Ele se foi... não tenho como saber... O que será que eu sou para Ele? Um sonho?.. Um devaneio?.. Um pensamento?.. Uma esperança?.. Não!.. Talvez eu seja apenas um texto, que Ele escreve, triste, num momento solitário de inspiração...

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